Fazer uma cirurgia de estrabismo e ver o desvio voltar tempo depois é mais comum do que se imagina, e não significa que a primeira cirurgia “falhou” ou que não há mais nada a fazer. A reoperação de estrabismo é um tratamento reconhecido, e para muitos pacientes é o caminho que traz o resultado que buscavam desde o início.
Sou a Dra. Gabriela Bolina, oftalmologista especialista em estrabismo em Belo Horizonte. Neste texto explico por que o desvio pode retornar depois de uma cirurgia, quando a reoperação é indicada e o que ela tem de diferente em relação ao primeiro procedimento.
Por que o estrabismo pode voltar depois de operado?
A cirurgia de estrabismo ajusta a posição e a força dos músculos que movem o olho, mas o corpo continua vivo e muda com o tempo. Alguns motivos que levam o desvio a retornar:
- O ajuste feito na primeira cirurgia foi insuficiente para o grau de desvio, ou o desvio era maior do que o esperado.
- Os músculos e tecidos se acomodaram de outra forma durante a cicatrização, meses ou anos depois.
- A cirurgia foi feita há muito tempo, geralmente na infância, e o crescimento ou o envelhecimento natural do sistema visual alterou o equilíbrio.
- Surgiu uma condição nova, como alterações da tireoide ou neurológicas, que passou a interferir no alinhamento dos olhos.
Nenhum desses motivos é incomum, e todos têm conduta possível.
Toda volta do desvio precisa de nova cirurgia?
Não. Um desvio pequeno, sem visão dupla e sem impacto na rotina, pode ser só acompanhado. Prismas nos óculos também resolvem parte dos casos, sem necessidade de operar de novo. A reoperação entra quando o desvio é significativo, causa visão dupla ou incomoda o suficiente para justificar um novo procedimento, sempre depois de uma avaliação que meça o que mudou desde a última cirurgia.
A reoperação é diferente da primeira cirurgia?
Sim, e por isso a avaliação prévia é ainda mais detalhada. Os músculos já foram manipulados uma vez, formaram cicatriz e podem estar em posição diferente da original. Entender exatamente o que foi feito na cirurgia anterior, sempre que possível com o relatório do procedimento em mãos, faz parte do planejamento antes de decidir a nova conduta.
Quando a reoperação é indicada, trabalho com técnica minimamente invasiva, que ajuda a preservar o tecido ao redor do olho e favorece uma recuperação mais confortável, mesmo num campo cirúrgico que já foi operado antes.
O que esperar do resultado de uma reoperação?
Cada caso tem uma expectativa própria, que só fica clara depois da avaliação. O objetivo é sempre melhorar o alinhamento e o conforto visual, seja reduzindo a visão dupla, seja diminuindo o desvio visível. Conversar sobre o resultado esperado, e sobre os limites dele, faz parte da consulta antes de qualquer decisão.
O que você não deve fazer
- Não desista de tratar por achar que “já operou uma vez e não resolveu para sempre”.
- Não procure uma nova cirurgia sem trazer informações da cirurgia anterior, quando você tiver acesso a elas.
- Não compare o seu caso com o de outra pessoa: cada reoperação depende do que foi feito antes e de como o tecido reagiu.
Já fiz uma cirurgia e o desvio voltou. E agora?
O primeiro passo é uma avaliação que olhe para o seu histórico completo, não só para o desvio atual. Atendo adultos com estrabismo que já passaram por outra cirurgia, incluindo casos mais complexos, sempre explicando o que é possível antes de decidir qualquer conduta.
Escrito pela Dra. Gabriela Bolina · Oftalmopediatria e Estrabismo · CRM-MG 80.761 · RQE 59.376 · Título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, membro do Conselho Brasileiro de Estrabismo e da Sociedade Brasileira de Oftalmopediatria.